Precisamos da origem do Joker?

Joker, o homem que ri

Neste momento, em 02 de Maio de 2019, adaptar personagens dos universos e franquias de histórias aos quadradinhos de super-heróis é abrir uma torneira de dinheiro. Até parece fácil, mas o passado de trevas destas adaptações, outrora desastrosas, mostra que não é assim tão fácil acertar o tom, a dinâmica e a essência da coisa.

E o que é essa essência? Boa pergunta. Nos anos 90 (ou melhor, sendo adolescente nos anos 90) a simples menção de consumir tal produto era gerida com muitas pinças; podia ser fenomenal partilhar esse interesse com amigos embora ninguém ousasse declarar tal coisa em frente ao sexo feminino, sob pena de estar condenado a interações piedosas. A essência era desfrutar daqueles dramas familiares, bom-contra-o-mal, mitologia reciclada com carradas de imagens espetaculares de musculados com super poderes e mulheres fabulosas.

Só posso invejar a nova geração Snapchat/Instagram que alegremente desfruta do programa familiar/romântico/avant-garde/friendly de ir ao cinema consumir adaptações das Graphic Novels (nome sério, inventado por nerds no início dos tempos).

Voltando ao Joker, personagem do universo de super-heróis da DC Comics, o antagonista do Batman por excelência. O filme da Warner (estreia em 2019), com Joaquin Phoenix no papel principal (Joker) é uma boa desculpa para refletir sobre o personagem.

O Joker nunca teve a sua origem completamente canonizada. Durante décadas houve histórias/novels que abordavam a sua origem sem nenhuma ganhar contornos definitivos. Batman, o seu adversário jurado, tem a sua origem canonizada em termos essenciais e são incontáveis as diferentes versões que se fizeram sobre a sua origem. Embora possam variar em detalhes, todas elas precisam de incluir que Bruce Wayne ficou órfão muito novo e que a sua luta enquanto justiceiro encapuzado está ligado umbilicalmente a esse evento.

Sobre o Joker, o espaço para operar criativamente é muito maior e ciclicamente há ou haverá novels para explicar ou imaginar a sua origem.

A abordagem mais ousada á origem da personagem foi o romance gráfico premiado de Alan Moore (https://pt.wikipedia.org/wiki/Batman:_The_Killing_Joke).

Em “Batman: The Killing Joe” Alan Moore faz uma abordagem recorrendo a uma origem trágica do personagem. A obra-prima do autor narra a história de um comediante falhado que atravessando um momento familiar particularmente difícil ingressa no mundo do crime. Após um acontecimento trágico a vida deste homem cruza-se com o Batman até ao ponto de viragem que é o seu desfiguramento. Não é necessário acrescentar mais detalhes, quem não leu fica com a ideia essencial sem ser necessário recorrer a mais “spoilers”.

Outro tema recorrente nas histórias Batman vs Joker é o confinamento de Joker a prisões especiais, misto de asilo para doentes mentais/psiquiátricos e de prisão de alta segurança.

As caracterizações mais abundantes do Joker andam sempre á volta de um estranho e tenso equilíbrio entre anarquismo, demência, apetite por jogos psicológicos, tortura, terror, auto-flagelo, só para citar alguns.

Muitas vezes saímos do clássico ambiente herói vs vilão porque tanto Batman como Joker são personagens muito distintos da habitual dinâmica “bem-contra-o-mal” tão presente e recorrente neste género de comics. O Joker clássico não pretende a dominação mundial, ou mais poder. De certa maneira ele constrói uma lógica inatacável dentro da irracionalidade que cultiva. Mas poderíamos dizer o mesmo de Batman, seguramente o herói mais próximo de ser caracterizado como justiceiro por conta própria. Nunca esquecer que, embora em um grau muito primário e redutor, o Batman é movido por vingança.

Acrescento ainda que o Joker tem em seu favor estar caracterizado com uma alma de comediante, um palhaço falhado. O imaginário que liga a imagem do palhaço ao terror não é uma ideia nova. Na realidade, é uma fobia bem antiga enraizada na nossa cultura. A desconstrução de um elemento tradicionalmente ligado ao humor positivo em um elemento aterrorizante é uma ideia explorada em diversas artes, pintura, escultura, cinema, ficção, romance. Stephen King, Edgar Allan Poe, Jon Wayne Gacci, são nomes que ligam a caracterização do palhaço ao terrro, seja por meio de escrita ou de atos pessoais no caso do último.

A personagem original de Joker tem inspiração em um personagem de um livro de Vitor Hugo: O homem que ri. Nesta obra, o menino sem-abrigo Gwynplaine é apresentado como alguém mutilado com um sorriso perpétuo (Glasgow smile).

Os filmes do Batman que incluem o Joker aproveitaram muito bem esse elemento para explorar o terrível imaginário da origem do seu sorriso mutilado, que até hoje não sabemos se foi obra alheia ou um auto de auto-flagelo. O Joker é, de facto, uma personagem sombria, digna de mexer com os nosso medos mais básicos e irracionais. Quem nunca teve um pesadelo com o Joker que atire a primeira pedra.

Isto tudo para dizer que:

Enquanto não for canonizada a origem deste fabuloso personagem, todo o material que se possa produzir sobre a origem dele é sucesso garantido. Tal como Batman e Joker não conseguem esconder a compulsão que os leva frequentemente a procurar o confronto físico (e emocional) entre si, também nós, o público assustadiço, não conseguimos esconder a sedução que um personagem como o Joker exerce em nós. O personagem atravessou décadas mantendo-se atual. E enquanto os seres humanos forem humanos, em toda a sua superação e miséria, esta criação vai ter sempre motivo de conversa. Sim, precisamos de dissertar sobre a origem do Joker.

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